O termo travestismo foi criado
por Magnus Hirschfeld, médico alemão que escreveu o
livro "The transvestites" no começo do século
XX.
Segundo o dicionário "Aurélio" (Ferreira,.
1995), travesti diz respeito ao disfarce no trajar, ou o "indivíduo
que, geralmente em espetáculos teatrais, se traja com roupas
do sexo oposto".
O psicanalista americano
Robert Stoller (1977) definiu o travestismo como "condição
na qual um homem se torna genitalmente excitado ao vestir roupas
íntimas femininas".
John Money (1993) define o travestismo incluindo todo aquele que
vista-se como se pertencera o sexo oposto, fazendo parte do rol
das parafilias.
Outro nome utilizado para estas preferências sexuo-eróticas
(ou apenas expressão social) tem sido "eonismo",
em referência ao denominado cavaleiro Eon, pois vestia-se
de roupas femininas.
A prática de vestir-se igual ao gênero
oposto era muito comum na antigüidade clássica greco-romana
e veio a ter mais relatos nos séculos XVI e XVII.
Nas culturas mais antigas o travesti tinha funções
equivalentes a "deuses", ou deveríamos chamar "deusas",
como refere a escritora travesti Linda Phillips (1996). Phillips
hipotetisa que uma primeira forma de travestismo deve ter ocorrido
quando do início do uso de peles de animais ao dividirem-se
os homens das mulheres, por exemplo, usando o homem a pele pendurada
no ombro direito, e a mulher no ombro esquerdo; ao usar a pele de
animal no ombro esquerdo, o homem teria se identificado com a mulher
pela inversão da norma social desenvolvida (!).
À época de William Shakespeare,
os papéis femininos no teatro eram todos desempenhados por
homens que costumavam travestir-se. As mulheres eram proibidas,
na Inglaterra de antanho, de participar das peças de teatro
por indicação dos líderes religiosos da época.
Um exemplo foi o ator Edward Kynaston, o qual se fazia acompanhar
fora do palco constantemente de uma mulher, e em momento algum existem
referências a um comportamento homossexual, mas em sendo o
melhor "atriz masculino" de sua época (Phillips,
1996). Àquela época o vestir-se com as roupas do outro
gênero era muito comum e não obtinha reações
negativas por parte das outras pessoas.
Phipllips (1996) aponta o quanto o travesti tem
sido confundido com o homossexual até nas décadas
recentes. O termo "queen" já era usado na Inglaterra
vitoriana, a exemplo de duas "queens" julgadas devido
a uso de banheiros femininos, amplamente noticiados nos jornais
e revistas da época. O julgamento durou por mais de uma semana.
"Stella" Boulton e "Fannie" Park foram cuidadosamente
despidas e cada peça do vestuário foi listada pela
polícia à época para ser noticiado nos jornais.
Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, na virada
do século temos várias descrições de
travestismo. Alguns tornaram-se ,famosos com o teatro, outros foram
perseguidos pela polícia. Denominados de "queers",
promoviam grandes festas onde participavam travestidos. Homens ricos
participavam destas festas, que aconteciam, por exemplo, na cidade
californiana de Long Beach, famoso balneário próximo
de Los Angeles (Ullman, 1995).
O travestismo aparece costumeiramente associado
a outras parafilias: fetichismo, exibicionismo, masoquismo; também
coexiste com orientações e escolhas objetais diversas:
homossexual, heterossexual e bissexual. A maior parte das pessoas
crêem que todos os travestis são homossexuais
Havelock Ellis esforçou-se, no início do século,
em diferenciar o travestismo da homossexualidade. Magnus Hirshfeld,
na Alemanha, também no início do século, esforçou-se
para que as diferentes práticas não fossem confundidas,
empenhando-se em campanha para que não fossem perseguidos
(Moré, s/d).

Henry Havelock Ellis, médico e psicólogo inglês
(1859-1939)
que diferenciou travestis de homossexuais na Inglaterra vitoriana.

Magnus Hirschfeld (1868-1935) estudando 3000 homossexuais (1910)
descobriu que muitos deles se travestiam.
Os estudos sobre formas alternativas de vivências
sexuais, de obtenção de excitação e
prazer sexuais tem recebido grande ênfase pelas formulações
psicanalíticas. Com as formulações psicanalíticas
afirma-se que um determinado traumatismo teria provocado a fixação
em determinada fase anterior do desenvolvimento da pessoa. Estas
posturas são bastante discutíveis e, na maioria das
vezes generalizadas a partir de observações clínicas.
Newman (1979) aponta para meninos, na infância,
que podem desenvolver o travestismo. Quando o comportamento de travestir-se
ocorreu em uma ou duas situações, e fora de caráter
lúdico, se o menino não sofre desapontamento ao desistir
do ato, e se não houver qualificação de excitação
sexual associada, não deve ocorrer futuros desenvolvimentos
para o travestismo, algumas formas de homossexualidade ou mesmo
transexualidade. Newman reforça a idéia de que o menino
usando roupas de menina na infância pode ser uma atividade
benigna, mas que também pode representar um transtorno de
identidade sexual. Diferencia as situações pela freqüência
e intensidade. Saghir e Robins (1973) apontam que 23% dos homens
solteiros passaram por situação de travestismo menos
de uma vez ao mês na infância e na adolescência,
geralmente em teatro na escola ou Halloween. Arndt Jr. (1991) não
considera desviante o travestismo ocasional na infância.
O início da prática travestida ocorre
em 91% dos casos antes dos 18 anos (Buckner, 1979). Situações
externas, a exemplo de depressão pós-separação
podem desencadear a prática do travestismo (Buckner, 1979).
Buckner (1979) aponta que em muitas situações
o travestir-se representa uma forma do homem afirmar que está
sendo exigido demasiadamente de seu papel masculino social. Esta
ameaça da masculinidade pode ocorrer, também, segundo
este mesmo autor, na proximidade da aposentadoria, provocando vontades
deste homem se travestir.
O travestir-se depende de caracter"isticas
individuais da identidade da qual se fala. Esta identidade se forma,
e continuadamente se metamorfoseia em contato bidirecional entre
o mundo subjetivo e o mundo obejtivo. Para definirmos as "causas"
pelas quais as pessoas se travestem, necessitamos conhecer e considerar
a história de vida desta pessoa, reconstituindo o trajeto
em seu todo e, através de sua auto-identidade, considerar
o projeto de vida que desenvolveu sobre este histórico.
O travesti é a expressão da identidade
da pessoa em seu contato com o mundo, expressa-se solicitando ser
identificada pelo resultado desta expressão.
A utilização de roupas do gênero
oposto pode ter várias funções e formas de
apresentação. Não se pode tomar como iguais
estas várias formas, as quais exigem motivações
diferentes e diferentes apresentações de identidades.
- Fetichismo - a motivação
erótica
Nesta situação o travesti delicia-se
com a sensualidade dos trajes femininos. Diferencia-se do fetichismo
usual que elege uma determinada peça ou categoria do vestuário.
No caso do travesti erótico, o prazer advém do uso
de todo o contexto feminino com todas peças e adereços
que tragam o significado feminino, incluindo lingeries, cintas-ligas,
meias, espartilhos, camisolas sedutoras, corpetes, baby dolls, negliges,
saltos altos...
Meyer (1979) relata o caso de um homem de 38 anos
que considerava o coito com a esposa somente gratificante se vestisse
roupas íntimas femininas enquanto estivesse envolvido em
atividades sexuais. Neste caso o homem não apresentava problemas
eréteis ou orgásmicos. Muitas parceiras mulheres se
mostrarão condescendentes e mesmo estimularão a prática;
porém a maioria das mulheres se oporão à prática.
O elemento fetichista não seria comum a
todos os travestis (Stoller, 1977; Person e Ovesey, 1978), pois
alguns travestidos usariam a roupa do gênero oposto para diminuírem
as ansiedades sobre a identidade de gênero e papel de gênero
(Person e Ovesey, 1978).
Aurioles e Téllez (1994) descrevem o fetichismo
travestista que consistiria em fantasiar ou vestir-se realmente
com roupas do gênero oposto, visando experimentar excitação
e com a ajuda para chegar ao orgasmo na masturbação
ou no coito. Afirmam estes mesmos autores que é típico
que o travestismo se inicie na infância ou na tenra adolescência,
podendo vir a desejar viver permanentemente como pessoas do outro
sexo. Neste travestismo fetichista, o homem teria comportamentos
femininos quando vestido com roupas femininas, o que seria ocasional
ou situacionalmente claro, diferente do cotidiano no qual teria
ocupação bastante masculina e atitudes e vestimentas
muito masculinas no dia-a-dia. Em termos de características
de personalidade variariam desde o solitário, deprimido e
com sentimentos de culpa até o egossintônico membro
sociável de uma subcultura.
Stoller (1982) afirma que o travestismo feminino
é pouco freqüente e adquire outros sentidos daquelas
formas masculinas. A principal diferença encontrar-se-á
na não necessidade de busca de excitação sexual
com o vestir-se com roupas do outro gênero. Sem apresentarem
orientação homossexual, teriam, desde a infância,
uma identificação masculina. Nestes casos femininos
dever-se-á promover um diagnóstico diferencial relacionado
a distúrbios de identidade de gênero e transexualidade
(Stoller, 1982).
Stoller (1993) dedica todo um capítulo
somente discutindo "As origens do travestismo masculino".
Stoller descreve a necessidade de uma família coerente com
o desenvolvimento da prática da inversão de vestimenta.
O travesti é um menino que desenvolveu uma identidade de
gênero nuclear masculina (uma convicção, uma
aceitação, um conhecimento corporal de que ele é
um homem), mas desenvolve masculinidade mais vulnerável à
ameaças do que outros meninos. Pode depender de identificações
negativas advindas da mãe como compensações
e culpas sentidas por esta na tentativa de superá-las. "Se
um menino com um sentimento comprometido de integridade e valor
é então travestido - especialmente depois de dois
anos por uma menina com impulsos transexuais - ele é um alto
risco de travestismo" (Stoller, 1993:202)
O travestismo fetichista ocorre, geralmente, na
intimidade e com relativa privacidade. Alguns travestis necessitam
da participação do grupo para receberem o reconhecimento
de sua identidade apresentada; este reconhecimento é o elemento
de manutenção desta identidade travestida, portanto
a necessidade do grupo; nestas situações não
existe a condição fetichista, a necessidade de obtenção
de excitação sexual com o travestir-se, a busca dirige-se
a encontrar uma identidade reconhecida e aceitação
de desejos individuais por um grupo e pessoas externas ao eu.
Kolodny, Masters e Johnson (1982) afirmam que
muitos travestis somente conseguem ereção peniana
quando travestidos, sendo sexualmente "impotentes" em
condições adversas.
Morrison (1994) afirma que o travestismo fetichista,
a exemplo de outras formas de fetichismo, gradualmente fica no lugar
do "sexo normal". Morrison afirma, ainda, que muitos destes
homens sentem um conforto crescente vestidos de mulher que se tornariam
transexuais. Naturalmente esta afirmação não
é aceita pela maioria dos que estudam as condições
transexuais, a exemplo de Stoller.
Este eroticismo margeia o narcisismo.
O travesti, em geral, já gosta bastante
de passar um tempo longo em frente ao espelho, seja para saber se
está tudo certo, ou simplesmente para admirar a própria
beleza através da bela mulher que o está olhando pelo
espelho...
O conceito do exibicionismo também é
aplicado aqui. Não o exibicionismo para o outro ou para encobrir
algum outro comportamento. Aqui falamos do exibicionismo de estar
em público passando-se por uma fêmea, vestida de modo
completo como uma mulher. Assim, para o mundo ele é ela!
O resultado é uma expressão sexual sentida mais cerebralmente
do que de forma tátil.
A motivação erótica, embora
mais comum, pode ser a mais maligna. Ë bom lembrar que não
interessa o quão forte são os impulsos sexuais sentidos,
não deve haver culpa ou vergonha associados ao travestir-se.
Se o travesti não se encarar tendo uma expressão sexual
que possa ser saudável, sentirá culpa, vergonha e
outros sentimentos e expressões destrutivos.
No ano de 1993, veio a público a acusação
de que o todo poderoso e temido Diretor do FBI (polícia federal
americana), John Edgar Hoover, era um travesti e bissexual (O Estado
de S. Paulo, 1993). Este é um bom exemplo de que os papéis
masculinos não interferem com os desejos de travestir-se
ou de relacionamentos com pessoas de ambos os sexos.
Morrison (1994) aponta para a formação
de uma subcultura travesti que envolve os praticantes em vídeos,
revistas especializadas e locais de encontro. Desta forma muitos
travestis desenvolvem-se mais e mais.
O travesti fetichista pode apenas vestir roupas
de baixo a exemplo de calcinhas, meias, até mesmo sutiãs,
sob a roupa masculina cotidiana e isto produzir a excitação
sexual procurada. Esta é uma prática vivenciada por
muitos homens que chegam a afirmar, justificando-se, que "as
calcinhas femininas são muito mais gostosas de serem usadas
do que as cuecas masculinas, mas ásperas, mais incômodas".
Prince e Bentler (1972), pesquisando 504 casos
de travestismo chegaram à seguinte tabela sobre o uso de
peças de vestuário por homens durante o coito:
| ROUPA
|
PERCENTUAL(N=504)
|
| camisola |
27 |
| calcinhas |
20 |
| sutiã
com enchimento |
18 |
| meia calça
|
17 |
| sapato de salto
|
11 |
| vestimenta completa
|
20 |
Sagarin (1979) crê que sejam pouquíssimos
os que se travestem e não tem interesse homossexual consciente.
Sagarin crê que seja um fetichismo indumentário que
esconda, como defesa, aquilo que a pessoa receou fosse um desenvolvimento
homossexual.
Money (1993) refere o termo Travestofilia para
significar o prazer sexual obtido com o vestir-se com roupas do
gênero oposto
O termo "Drag Queen" já é
usado na literatura técnica há algumas décadas
(Sagarin, 1979). Poderia ser traduzido por algo como "rainhas
fantasiadas", embora esteja sendo usado em português
de modo bastante difundido nos últimos poucos anos.
Homens que, geralmente tem outras atividades durante
o dia, vestem-se, à noite, com roupas femininas, mas de modo
a imitar, satirizar, sem poder, realmente, serem confundidos com
uma mulher.
Por serem muito extrovertidos e não praticarem
a prostituição tem recebido maior aceitação
e divulgação por parte da mídia no Brasil.
Muitos, assim, tornam-se artistas ou participam de performances
artísticas.

Drag Queen em desfile por ruas americanas,

Homem travestido à moda Drag Queen
participa de manifestação de rua nos Estados Unidos.
- Motivação erótica
na prostituição
Muitos travestis, talvez os mais conhecidos, apesar
de desejarem mostrar-se e parecerem ser mulheres, usam esta condição
para obterem dinheiro através da prostituição.
Estes travestis dependem de homens que desejem fazer sexo com homens
que se assemelhem a mulheres, mas que, lá dentro, saibam
de que se tratam de homens.
Estes homens que procuram travestis para obterem
prazer sexual são atualmente conhecidos como ginandrofílicos.
A ginadrofilia é uma parafilia, uma denominação
para classificar este tipo de homens e seus prazeres diferentes.
Money (1993) utiliza o termo ginemimetofilia.
Destes travestis, muitos iniciaram sua vida de
travesti pelo prazer em se vestirem como mulheres e desejarem passar-se
por mulheres. Com a dificuldade em conseguir um emprego, pois não
tem condições sociais de explicarem-se por usarem
roupas e maneiras de mulher, muitos passam a se prostituir. Vender
o sexo e p prazer sexual a outras pessoas passa a ser uma possibilidade,
pois sem emprego não conseguem alugar um local para morar,
sem onde morarem, sem dinheiro e sem emprego, prostituir-se é
o caminho aparentemente mais "fácil". O travesti
aprende mais técnicas de como seduzir e se tornar mais apreciado
e desejado. Noturnamente vende o corpo para obter algum dinheiro,
o qual tem que dividir com seus administradores, cafetões
e cafetinas, que os protegem e conseguem algum local para morarem.
Maria José Benites, assistente social em
Blumenau (SC) produziu um estudo sobre as condições
sócio-econômicas dos travestis prostitutos naquela
cidade. Trata-se de uma cidade considerada "boa para trabalhar",
onde os fregueses são bons pagadores, gentis e discretos.
Dentre os fregueses existem muitas "mariconas", homens
que solicitam serem penetrados durante o "programa". Os
travestis pesquisados preferem ser penetrados, deixando de fazer
o programa se ao contratarem o programa o freguês solicitar
ser penetrado.
Os programas são realizados em motéis, saindo o travesti
e o freguês do centro da cidade, buscando maior privacidade
e sigilo; somente quando o freguês solicita um sexo oral ("boquete")
o programa é feito no carro. A Polícia Militar, encarregada
do policiamento noturno, não os incomoda, exceto quando travestis
de outras cidades invadem Blumenau, o que gera tumultos entre os
dois grupos. Pesquisando 12 dos 14 travestis em ação
na cidade de Blumenau, Benites encontrou idades entre 17 e 39 anos
( o de 39 anos é considerado "velho" e faz poucos
programas), com grau de instrução variando entre o
nível I do primeiro Grau e o universitário incompleto
(apenas dois travestis tem mais que o primeiro grau, nenhum analfabeto,
e sentem que não podem continuar os estudos devido ao preconceito
que recebem das outras pessoas e o fato de terem saído da
casa dos pais). Os travestis identificaram-se como católicos
romanos (10/12), sendo comum terem em casa santos e santas, e 8/12
rezam após o término do trabalho pedindo proteção.
¾ são fumantes desde a idade de 10-12 anos. Os travestis
que "batalham" em Blumenau vem de 6 Estados, sendo o mais
significativo o Paraná e o próprio Estado de Santa
Catarina (2/3 são provenientes dos três Estados sulinos),
porém nenhum de Blumenau. Somente um travesti reside em Blumenau
há menos de um ano; ¾ residem em casas alugadas (numa
casa moram 5 travestis que dividem o aluguel). Benites descobriu
apenas 4/12 dos travestis não usando algum tipo de drogas,
tendo 2 sido usuários por 10 anos até um ano anterior.
Os travestis tem qualificação profissional (7/12:
cabeleireiro, datilografia, torneiro mecânico), e 9/12 fazem
shows para completar os rendimentos mensais, o que ocorre após
o trabalho nas ruas, geralmente à 1 hora da manhã
(dublagens, imitações, strip tease, pelo que recebem
de R$50 a R$70 por espetáculo). A renda mensal varia de R$150,00
a R$1500,00, sendo que a metade dos estudados percebe de R$800 a
R$1500,00. Sete travestis referem ter bens imóveis (herdados
dos pais) ou móveis (telefone, carro). O medo da "Tia"
(pseudônimo usado para a AIDS) parece estar afastando os fregueses
segundo estimativa dos travestis, mesmo que afirmem que somente
fazem programas com o uso de preservativos, penetrando ou sendo
penetrados. Somente dois fizeram implante de silicone nas mamas,
o restante fez injeções de silicone, o que faz com
que haja dor se forem batidos (sic). Estes travestis não
se identificam com outros termos usados em outras cidades ou que
indicam outras funções, a exemplo de transformista
ou "drag queen"; porém admitem o termo "gay",
usando raramente a palavra homossexual. Os travestis estudados por
Benites aproximam-se mais do conceito de transexuais, pois referem
"sentirem-se mulheres" e não se sentirem homossexuais.
A identidade do travesti advém mormente do grupo, no qual
cada um procede a um suporte mútuo, o que inclui a busca
da transformação uns dos outros com as injeções
de silicone por meio de seringas aumentando as mamas, quadris, coxas
e rostos e usarem hormônios femininos.
O romance de Adelaide Carraro (s/d), "O travesti",
descreve a vida de um travesti, nomeado Jaqueline, na cidade de
São Paulo, seu cotidiano na prostituição, as
maneiras de se produzir par o trabalho e outras técnicas
utilizadas pelos travestis, a exemplo do manuseio dos genitais para
esconder o escroto/testículos e pênis. Embora escritora
famosa, não se trata de um livro com farta distribuição
e edições múltiplas.
- Motivação de liberdade
de vestir-se
Esta motivação tem a ver com a habilidade
do travesti em seguir os diferentes parâmetros sociais, tanto
o masculino quanto o feminino: liberdade de vestir-se, ou a aprovação
social (ou ao menos a aceitação) em vestir-se de modo
pessoal de acordo com qualquer dos gêneros.
Embora haja uma tendência unissex desde
a década de 70 no mundo ocidental, ainda sobram divisões
definidas entre o vestir-se dos homens e o das mulheres. A habilidade
de mulheres usarem roupas masculinas tem uma aceitação
social muito maior do que quando homens se vestem de mulheres. A
liberdade da inveja e a falta de regras rígidas servem de
motivação para o travesti, mesmo contra uma grande
população que não lhes é simpática.
Mesmo com outras direções seguidas
pela moda geral, a moda para os travestis continua seguindo uma
única direção. O travesti escapa da conformidade
emocional produzida pela moda.
No carnaval brasileiro, é muito comum o
homem travestir-se, mostrando-se não necessitado em aderir
ao vestir-se convencional masculino. Porém, devemos considerar
outras motivações individuais, inclusive homossexuais
declaradas ou encobertas pelo fantasiar-se de mulher.
Muitos travestis com outras motivações,
em especial o prostituto, trabalham como "transformistas",
fazendo espetáculos nas boates das cidades de médio
e grande portes.
Muitos são "drag queens", fazendo
destes espetáculos sua segunda jornada de trabalho.
David Bowie, cantor inglês, sempre aproveitou-se
com apresentações travestido.
Um cantor que auferiu bastante fama na década
de 80 travestindo-se foi o inglês Boy George. Apresentando-se
sempre com esdrúxulas formas femininas atingiu bom sucesso,
até que, recentemente, deixou de usar os aparatos travestis
em suas apresentações musicais.
Poucos mostram-se como travestis/transformistas
profissionais, como é o exemplo do grupo Companhia Baiana
de Patifaria, que já se apresentou com grande sucesso nas
grandes capitais brasileiras e retorna no ano de 1996, em São
Paulo, com uma peça teatral "Noviças rebeldes",
musical onde todos os atores homens personificam freiras que montam
um musical para sobreviver (Revista da Folha, 1996).
Em telenovela da Rede Globo de Televisão,
neste ano de 1996, "Explode coração", a
autora, Glória Perez, incluiu uma personagem que, nascida
homem, convive harmoniosamente com todos vestido de modos femininos
constantemente. Embora tratado pela mídia, inadequadamente
como "drag queen", ou mesmo travesti, a personagem Sarita
Vitti, traz uma forma do público em geral conviver melhor
com esta idéia (Amaral, 1996). Aparentemente não se
deixa claro suas preferências sexuais objetais ou motivações
para travestir-se. Porém, podemos afirmar, que o ator Floriano
Peixoto traveste-se por motivos profissionais, o que talvez devesse
fazê-lo receber a classificação de transformista,
referindo-se ao travesti que assim se veste em prol de espetáculos,
teatro, televisão, cinema...
Muitos atores participaram de filmes em que se
apresentavam travestidos e obtiveram fama com isto. Nomes como Fatty
Arbuckle, Mickey Rooney, Dustin Hoffman, Robin Williams, Wesley
Snipes, Patrick Swayze e John Leguizamo fizeram grande sucesso em
papéis desde importantes comédias a dramas envolventes.
- Motivação de expressão
emocional
O papel social masculino em nossa cultura tem
seguido um padrão muito rígido, sem saídas
e baseado num grupo de falsos conceitos. A noção de
que o homem não pode ser carinhoso, ou mover-se de modo lânguido
e gracioso, força o homem a viver numa prisão emocional,
à qual foi sentenciado desde o nascimento.
O travesti busca refúgio temporário
das demandas sobre o masculino em suas roupas e feminilidade. Assim
o travesti foge das ansiedades provocadas pelos papéis de
marido, de pai, de provedor da família e da casa, das exigências
no trabalho, de ter que ser macho nas brincadeiras feitas pelos
amigos... Quando se veste de mulher e passa algum tempo fazendo
o papel feminino afasta-se das pressões cotidianas dos papéis
sociais que vive e é obrigado a viver.
O travesti não procura ser exatamente uma
mulher, mas o que a sociedade determina que é próprio
da conduta feminina de modo a se equiparar com a população
feminina.
Esta liberação de tensão,
mesmo que por pequeno período de tempo, geralmente recarrega
as energias e permite ao travesti retornar às demandas sociais
determinadas por uma cultura machista. Assim o travesti retorna
como se tivesse tido férias, com novas forças.
O Tiffany Club, na cidade americana de Natick
(Massachussets), reúne apenas homens heterossexuais, que
travestidos, passam as tardes ou festas a conversar sobre aspectos
masculinos da vida. Este clube é apoiado por uma entidade
denominada International Foundation for Gender Education, que se
ocupa de oferecer apoio a clubes semelhantes e promove publicações
neste sentido nos Estados Unidos, abarcando cerca de 10 mil homens
(Pinto, 1993).
Assim, aqui temos o travestismo como uma forma
saudável de expressão da sexualidade, além
de manter o equilíbrio mental da pessoa, permitindo que este
homem possa continuar vivendo e convivendo com as pressões
sociais exercidas sobre ele.
- Motivação de mudança
de identidade
A oportunidade de existir como outra pessoa de
forma íntegra, vivendo de forma completamente oposta ao que
sempre se foi pode servir de motivação muito forte
para uma pessoa se travestir.
O travesti se compromete, ao se aventurar em público
como mulher, a conseguir usar toda a habilidade que tem em atuar,
usar maneirismo e se preparar como mulher.
A maioria dos atores de teatro, televisão
e cinema obtém prazer com seu trabalho personificando outras
pessoas.
O travesti consegue uma satisfação
semelhante durante o tempo que vive sob outra personalidade, seja
um tempo pequeno ou por várias horas.
Muitas pessoas confundem a motivação
para mudança de identidade com a personificação
feminina. O travesti sai em público com o objetivo expresso
de parecer uma mulher completa. O performista, ou transformista
precisa de uma situação especial para mostrar-se,
para atuar, um palco. Embora ambos possam usar uma forma semelhante
de motivação, tem objetivos diferentes a serem atingidos.
A motivação de mudança de
identidade associa-se ao conceito de transexualidade. É importante
ressaltar que o transexual não apenas representa-se a si
mesmo como mulher, mas também para experimentar o sentir-se
mulher o mais completamente possível. Nesta motivação
de mudança de identidade teremos muitos outros fatores a
considerar nos transexuais.
Referir-se ao travestismo de forma psicopatológica
sempre foi o ponto de vista mais comum no que se refere discursos
oficiais na psiquiatria e psicologia. Antes da formação
e distinção da psiquiatria e da psicologia, enquanto
práticas definidas dentro da ciência, o travesti não
era visualizado como uma psicopatologia; antes apenas como uma pessoa
diferente.
No DSM-IV (Morrison, 1994), existe a referência
ao travestismo fetichista sob o código 302.3, definidos como
o vestir-se com a roupa do gênero oposto com o objetivo de
obter excitação sexual com critério definido
pela repetição, pelo mínimo de seis meses,
de um heterossexual tendo intensos desejos, fantasias ou comportamento
que implique o uso de roupas do gênero oposto. Caso haja desconforto
com a identidade de gênero ou o papel de gênero, a classificação
deve ser de "disforia de gênero".
Os praticantes do travestismo sentem-se renegados
pelos profissionais de saúde, pois, em geral, existe a não
aceitação de seus desejos e referência a seus
comportamentos serem abjetos e inadequados.
A identidade grupal tem sido desenvolvida pelos
praticantes a ponto de criarem termos especiais para se autodenominarem.
Nos Estados Unidos as letras "TV" são utilizadas
nas revistas especializadas e em anúncios para que sejam
identificados dentro do grupo e dos interessados em travestis.
A quantidade de homens envolvidos em travestismo
é grande o suficiente para que uma subcultura se forme e
se mantenha a si e a um mercado crescente no mundo ocidental nas
grandes cidades.
Na cidade de São Paulo, existe o Atellier
Eliana, cujo dono pratica o travestismo erótico na intimidade
com a própria esposa, tem à venda lingeries em números
que servem às mulheres e aqueles especiais para homens, incluindo
sapatos de números grandes. Questionados, os donos da loja
confirmam que os clientes não são os travestis profissionais
e prostitutos, mas homens comuns que sempre ficam à espera
de que o empresário retorne de suas constantes viagens ao
exterior trazendo novidades para seu, autodenominado, "erotic
shop". As roupas mais vendidas para homens são espartilhos
e peças semelhantes. A maioria dos homens que se travestem
na intimidade, com ou sem a participação da esposa,
buscam comprar calcinhas, sutiãs, espartilhos e cintas-ligas
com meias em lojas especializadas em lingeries para mulheres. A
desculpa utilizada pelos homens é que estão comprando
roupas para suas esposas e/ou namoradas. Os vendedores geralmente
percebem a diferença do tamanho das roupas pedido, tamanho
grande! Também mostram-se muito discretos, pois reconhecem
que o freguês não pode ser desmascarado, e poderá
sempre retornar par comprar as roupas que tanto lhe dão prazer.
Um mercado especial foi se desenvolvendo para
produzir roupas e adereços especiais para homens que desejam
travestir-se. Apetrechos simulando mamilos femininos ingurgitados
podem ser encontrados no Brasil em alguns Sex Shops. Adereços
mais sofisticados, não paródias grosseiras, tem sido
desenvolvidos, a exemplo do "Tube Top Tits" (Buddy, s/d,
pag. 10-11). Outras formas de apetrechos com o formato de mamas
são anunciados amplamente nas revistas especializadas (Buddy,
s/d, pag 13)O uso de aparelhos de vácuo para dilatação
das mamas tem sido vendidos com o objetivo de aumentá-las
(Mulheres também as compram. "Calcinhas" especiais
são vendidas: tem acopladas, em borracha, uma "vulva"
para trazer a aparência física feminina, e enchimentos
nas nádegas (Buddy, s/d 12-3).
Em New York, um grupo de travestis, denominado
The Imperial Court, anualmente promove um baile beneficente especial
chamado "Night of 1000 Gowns" (a noite das mil camisolas).
Revistas especiais tem sido publicadas há
décadas nos Estados Unidos e Europa. No Brasil o travesti
tem acesso a revistas e filmes sobre travestis e transexuais, mas
não existem publicações nacionais que estejam
voltadas para ensinar, vender ou mostrar aos desejosos as orientações
para atingirem seus almejados objetivos. No mercado mundial, revistas
do tipo TV Guy, Dragazine e Transformation dedicam-se a serem materiais
de suporte para aqueles desejos travestis.
O travesti considera feias as roupas masculinas.
Buscam nas roupas femininas algo que os faça confortáveis
em seus ideais estéticos. Para acompanhar a nova vestimenta
devem raspar/depilar as pernas (para aqueles que desejam o travestir-se
ocasional o aparelhos de lâminas usado para as barbas é
o mais indicado, para aqueles que desejam um efeitos mais completo
ou duradouro, a depilação com cera é o mais
indicado). A alternativa são meias mais grossas que impeças
os pelos de serem vistos. Sutiãs podem ser os comuns, mas
aqueles com suporte, com barbatanas ou mesmo os com enchimentos
especiais. O pênis tem que ser escondido adequadamente. Os
travestis profissionais desenvolvem técnicas através
das quais conseguem introduzir os testículos sob a pele do
púbis e o pênis verticalmente à frente do púbis
ou para trás em direção ao ânus. Uma
alternativa são "calcinhas" de látex que
mantém o pênis bem apertado e não aparente após
vestir-se completamente com roupas femininas. Estas peças
de látex são especiais e não tão difundidas
no Brasil. Então vêm meias, vestido/saia, pulseiras,
braceletes, colares, brincos, maquiagem, unhas (talvez postiças,
mas com certeza esmaltadas) e... perucas (se o homem não
tiver cabelos compridos ou compatíveis com um penteado feminino).
Embora tenhamos entre os profissionais de saúde
a impressão de que sabemos tudo o que ocorre sobre a vida
das pessoas, existem muitos aspectos ainda por serem melhor compreendidos
e aceitos. De nossa aceitação e compreensão
virão a aceitação e compreensão do mundo
leigo, serão criadas representações sociais
maios próximas de uma realidade humana útil e permissiva
de melhor entendimento e convivência entre as pessoas em geral.
Infelizmente, existe uma fatia da população
que vive com preocupações hostis com relação
aos travestis, fato determinante de muitas mortes destes cidadãos
(1200 de 1985 a 1995, segundo depoimentos à imprensa - Fernandes
e Noronha, 1995). Felizmente eles mesmos tem tomado a dianteira
e procurado demonstrar estas perseguições preconceituosas,
por exemplo, através de passeatas e manifestações
públicas (Seidl, 1992; Folha de S. Paulo, 1994).
A busca da cidadania e respeito ocorre, no Brasil,
por parte dos travestis prostitutos, fazendo com que promovam encontros
para discutirem, por exemplo, a legalidade da prostituição,
visando o direito à aposentadoria (Noronha, 1995), ou a busca
da auto-preservação, desenvolvendo cartilha especial
para ensinar aos outros travestis como lidar com a AIDS (Stycer,
1995).
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