| Várias facetas podem ser
observadas para o que se denomine identidade sexual.
Alguma confusões surgem ao se utilizar
indistintamente palavras misturando significados. Muitas vezes podemos
ouvir a frase "identidade sexual" querendo referir-se
a objeto do desejo sexual, geralmente querendo distinguir heterossexualidade
da homossexualidade ou da bissexualidade. Esta é uma postura
leiga que não inclui outras possibilidades de escolhas sexuais,
a exemplo de objetos propriamente ditas, excluindo-os dos discursos,
como se o fossem fazer da vida das pessoas.
Algumas definições valem
nestas distinções:
- A frase papel de gênero apareceu a primeira
vez na literatura em 1955, utilizada por John Money. Em 1966 surge
a frase identidade de gênero. Money (1993) apresenta a idéia
de que sexo é o componente orgânico/genético
(masculino, feminino e intersexo) e gênero (masculino, feminino
e andrógino) como o que nos tornamos socialmente.
- Identidade de gênero é o sentir-se
masculino ou feminino de forma convicta e convincente, e assim
se identificar para si mesmo e para os outros, utilizando-se dos
meios sociais e do curso do pensamento individual.
- O papel de gênero (Money, 1993) diz
respeito aos estereótipo social do ser homem ou do ser
mulher.
Alguns questionamentos merecem atenção:
Uma vez que a identidade seja reconhecida numa
relação ela é assumida como produto e não
como produção, e para se manter assim, se faz necessária
a re-atualização através de rituais sociais,
reposição como algo já dado, retirando em conseqüência,
o caráter de historicidade, aproximando-a da noção
de mito que prescreve condutas corretas, reproduzindo o social.
A reposição da identidade deixa de ser vista como
sucessão temporal passando a ser vista como simples manifestação
de um ser idêntico a si-mesmo em permanência e estabilidade
(Ciampa, 1985, pag. 66-7). A mesmice de mim é pressuposta
como dada permanentemente, e não como re-posição
de uma identidade que uma vez foi posta (Ciampa, 1985, pag. 67).
As atividades de indivíduos identificados são normatizadas
tendo em vista manter a estrutura social, vale dizer, conserva a
identidade produzida, paralisando o processo de identificação
pela re-posição de identidades pressupostas, que um
dia foram postas. A identidade é a representação
do estar sendo, onde o ser o que se está sendo é uma
parcela da humanidade que nega o que se é sem se estar sendo,
a humanidade total. "A identidade, que surge como representação
do meu estar-sendo, se converte num pressuposto de meu ser (como
totalidade), o que formalmente, transforma minha identidade concreta
(entendida como um dar-se numa sucessão temporal) em identidade
abstrata, num dado atemporal-sempre presente (entendida como identidade
pressuposta re-posta)". "Desta forma eu me represento
a outrém, não sendo minha totalidade nem me mostrando
'sendo'; representação:
- eu me represento enquanto estou sendo o representante
de mim (com uma identidade pressuposta e dada fantasmagoricamente
como sempre idêntica);
- eu represento, em conseqüência,
enquanto desempenho papéis (decorrentes de minhas posições)
ocultando outras partes de mim não contidas na minha identidade
pressuposta e re-posta (caso contrário eu não sou
o representante de mim);
- eu represento, finalmente, enquanto reponho
no presente o que tenho sido, enquanto reitero a apresentação
de mim - re-apresentado como o que estou sendo - dado o caráter
formalmente atemporal atribuído à minha identidade
pressuposta que está sendo reposta, encobrindo o verdadeiro
de minha identidade (como uma sucessão do que estou sendo,
como devir)." (Ciampa, 1985, pag. 69).
Nas culturas ocidentais, o gênero (tanto
o feminino quanto o masculino) não apresenta alternativas
outras que não seja a pertença a um dos dois gêneros
(masculino ou feminino). Esta padronização iniciada
desde antes do nascimento pode trazer conflitos ao adolescente.
A escolha prévia do nome da criança, por parte dos
pais, já prenuncia os desejos dos pais em, ter um filho ou
uma filha. Na frustração dos pais, ao nascer uma criança
do sexo oposto, conflitos se instalam na criança muito cedo
na infância, pois passam a haver cobranças ambivalentes
que não confirmam (e antes, desconfirmam) o gênero
ligado ao fenótipo genital).
John Money (1992) apresenta a idéia de
que pode haver uma terceira alternativa para os gêneros masculino
e feminino: a androginia. Nesta condição a pessoa
não se encontra em situação conflitante, antes,
encontra nesta condição de identidade a união
dos gêneros tradicionais e desenvolve qualidades de ambos
os gêneros ("sexos").
A androginia já havia sido precognizada
como uma saída de desenvolvimento de identidade. Bem (1974,
1975) cunhou a frase "androginia psicológica" significando
a possibilidade de uma pessoa assimilar qualidades e capacidades
do gênero oposto, o que vem a facilitar o desenvolvimento
e sucesso social, segundo aquela pesquisadora mesmo pode confirmar
com as pesquisas posteriores. A psicóloga americana considera
este papel sócio-sexual andrógino podendo ser uma
forma de maior saúde psicológica.
A posição andrógina do adolescente
pode ser uma forma de experimentar ambas possibilidades de identidade
genérica, antes de solucionar o conflito que se lhe apresenta
nesta fase da vida (Rodrigues Jr., 1991).
Devemos, enfaticamente, no entanto, distinguir
a identidade andrógina da escolha objetal bissexual. Um adolescente
que esteja desenvolvendo uma forma de identidade andrógina
não tem que ter escolha objetal homossexual, mas pode ser
encarado socialmente assim, o que o conduz à busca de uma
identidade convencional através da escolha objetal heterossexual
.
A identidade ou papel de gênero é
singular e não plural, mas também é bi-dimensional,
tal qual uma moeda e seus dois lados. Gênero engloba sexo
e eroticismo (Money, 1985).
Money (1992) afirma um primeiro passo na diferenciação
de identidade de gênero: questões genéticas
e hormonais em especial agindo sobre o hipotálamo. Nestas
situações, outras condições psiquiátricas
devem se associar, mostrando-se ao longo da infância e adolescência.
Situações orgânicas mostravam-se mais evidentes
(ao menos por análise e mapeamentos genéticos): hermafroditismos
e intersexualidades.
Money refere que a identidade de gênero
é muito mais que o sexo que inclui, muito mais do que apenas
o fenótipo ou o critério da genitália externa.
A identidade de gênero engloba o status de homem ou mulher,
masculino ou feminino (ou misto) no critério de premissas
múltiplas pessoais, sociais e legais, incluindo a orientação
sexuoerótica (Money, 1985).
Embora as atribuições físicas
sempre tenham sido usadas para corroborar a identidade de mulher
ou de homem, na década de 70, médicos iniciam o discurso
que as diferenciações musculares e de distribuição
de gordura, esqueleto e cabelos não estão por completo
sob domínio genético (Andrade, 1970). A forma física
e mesmo as funções não são masculinas
ou femininas apenas por ter uma pessoa nascido homem ou mulher.
Na década de 70, autores, a exemplo de
Hampson (1970) iniciam o discurso de que "o papel genérico
do sexo psicológico" parece ser aprendido, ou seja diferenciado
por meio de aprendizagem durante o crescimento do indivíduo.
O ser humano nasceria neutro no que respeitaria ao conceito de identidade
de gênero, no que apontava a diferenciação de
postulados psicanalíticos de uma bissexualidade psicológica
constitucional inata.
Devemos aqui, distinguir a identidade de gênero,
enquanto "identidade sexual", dos papéis sexuais,
que compreendem parte dos papéis sociais. Devemos entender
que a identidade de gênero não apenas compreende os
papéis sexuais, como tende a defini-los através da
modelagem social. Identidade de gênero tem sido caracterizada
enquanto elaboração cultural (Money, 1985) de aparência
pessoal (Bem, 1989, segundo Marante, 1994).
Guimarães (1995) refere a identidade pessoal
como o processo-base da identidade sexual.
Nas pessoas integradas com seu sexo genital, estes
são fonte direta das sensações e confirmação
de seu gênero; pênis e escroto são provas diretas
da masculinidade e identidade masculina para os homens.
Telford e Sawrey (1977) definem o papel como modos
de agir, socialmente prescritos, em determinadas situações.
Os papéis seriam definidos culturalmente e dependem de crenças
e expectativas partilhadas pelo indivíduo e pelos outros.
Para Telford e Sawrey (1977), os papéis
sexuais são ditados pela sociedade e definem-se em termos
de roupas, atitudes, interesses, fala e ocupações.
Telford e Sawrey descrevem as características dos papéis
em decorrência do sexo (masculino/feminino):
"o menino é mais ativo, agressivo,
barulhento e sujo; joga futebol e pode tornar-se engenheiro. Mais
sossegada, submissa, asseada, a menina brinca de casinha, costura
para as bonecas, gosta de música e prefere roupas cor-de-rosa
a roupas azuis." "... a tipificação dos
homens é mais rígida que a das mulheres." (Telford
e Sawrey, 1977, pag. 487)
As normas culturais formatam os papéis
sexuais baseados no sexo biológico (Ruch, 1984; Satten, Savells
e Murray, 1984).
Como parte do papel sexual, a escolha de objeto
para relacionamento sexual se torna muito freqüente e considerada
parte deste mesmo papel. Parker (1994), considerando a heterossexualidade
e a homossexualidade como construções sociais, apontam
como estas classificações passaram a ser mais comuns
com o surgimento da AIDS, embora menos significativas que as classificações
de "atividade" e "passividade", papéis
dentro do ato sexual e manifestações diferentes da
masculinidade e feminilidade. As características dos papéis
sexuais são construídas através de certa fluidez
e de acordo com os diferentes grupos e subgrupos sexo-sociais no
Brasil. Parker, advindo de contexto cultural diferente de seu objeto
de estudo, neste mergulhado, passa a apontar as formações
dos papéis sexuais de modo diferente do que é definido,
demonstrando as diferenças oficiosas decorrentes de diferenças
sociais e das construções sociais destes diferentes
grupos.
Astrachan (1989, pag. 344) traz um exemplo interessante
sobre um homem que tem problemas de ereção por não
poder dizer "não" quando não queria fazer
sexo, mas que, seguindo conselhos de amigos aceitou convites sexuais
de mulheres interessadas nele. Ao tentar seguir os padrões
exigidos socialmente para o seu papel masculino, o homem citado
não percebia suas emoções. Para ser homem,
para se mostrar homem, e para se sentir homem, o exemplo de Astrachan
deixava seus próprios sentimentos de lado. O padrão
de masculinidade, o papel sexual exigido socialmente do homem o
faz colocar de lado a si mesmo. Astrachan associa estas questões
às questões de poder no contexto social ligado às
formas homem e mulher.
Assim encontramos as primeiras referências
à identidade masculina, através do papel sexual prescrito
socialmente ao homem e de modo mais rígido do que o que ocorre
com as mulheres.
Parker (1989) aponta para a construção
social dos papéis masculinos e femininos na sociedade brasileira
baseados numa sociedade profundamente patriarcal herdada da colonização
portuguesa. De Souza e Hutz (1995) concordam e se referem ao reforço
de sistemas de interdição religiosa (por exemplo,
o sexo significando procriação) e localização
de poder (por exemplo o homem tendo poder sobre a mulher). De Souza
(1992) afirma que o homem e a mulher são expostos e reforçados
pelos scripts sexuais tradicionais e que são imersos numa
estrutura social-econômica e política que contribuem
para a sensação de perda de controle ao terem que
se adaptar à ordem social em mudança.
Os papéis sexuais tem sido muito usados
nas discussões relacionadas a travestismo, homossexualidade
e transexualidade. Embora possa ser parte da discussão, os
papéis sexuais são contexto secundário para
determinação daquelas condições.
Em publicação mais tardia, seu sétimo
livro sobre o assunto, Stoller (1993) apresenta cinco fontes das
quais resulta a identidade de gênero nuclear:
- uma ‘força’ biológica:
originado-se na vida fetal e comumente genética em sua
origem, esse efeito - tanto quanto se sabe - emerge da organização
neurofisiológica (sistema nervoso central) do cérebro
fetal;
- A designação do sexo no nascimento:
a mensagem que a aparência dos genitais externos do bebê
leva àqueles que podem designar o sexo - o médico
que está atendendo e os pais - e os efeitos inequívocos
subseqüentes desta designação para convencê-los
do sexo da criança;
- A influência incessante das atitudes
dos pais, especialmente das mães, sobre o sexo daquele
bebê, e a interpretação destas percepções
por parte do bebê - pela sua capacidade crescente de fantasiar
- como acontecimentos, isto é, experiências motivadas,
significativas;
- Fenômenos ‘biopsíquicos’:
efeitos pós-natais precoces causados por padrões
habituais de manejo do bebê - condicionamento, ‘imprinting’
ou outras formas de aprendizagem que, nós imaginamos, modificam
permanentemente o cérebro do bebê e o comportamento
resultante, sem que os processos mentais do bebê o protejam
deste ‘input’ sensorial. Esta categoria está
relacionada com o ítem 3; ela é listada separadamente
por uma questão de ênfase, e para distingui-la dos
processos mentais (também resultado das influências
dos pais) com os quais nós estamos mais familiarizados,
tais como a ansiedade de castração;
- o desenvolvimento do ego corporal: a miríade
de qualidades e quantidades de sensações, especialmente
dos genitais, que definem o físico e ajudam a definir as
dimensões psíquicas do sexo da pessoa, confirmando,
assim, para o bebê as convicções dos pais
a respeito do sexo de seu filho." (Stoller, 1993, pag 29-30)
É necessário acrescentar a estes
ítens de Stoller a questão dos processos de pensamento
que se desenvolvem no indivíduo em interação
constante e dialética indivíduo-sociedade. Sob influência
social, alguns processos de pensamento tornam-se mais comuns, e
muitas vezes agem, irracionalmente, contra o próprio indivíduo.
A tendência geral de processos de pensamento estereotipados
auxilia a manter os padrões de gênero estereotipados
e de modo convencional. Os processos de pensamento desenvolvendo-se
desde a infância, sedimentam-se com a adolescência,
produzindo um adulto acrítico e incapacitado de discutir
consigo mesmo alternativas de papel de gênero, confundindo-o
com a identidade central.
A identidade de gênero é autorrevelada
aos outros através de palavras e comportamento, e é
publicamente conhecida e reconhecida. Porém, as outras pessoas
sempre sabem menos do que o indivíduo sobre a totalidade
do gênero deste, o que as faz construir, em segunda mão,
as evidências da identidade de gênero de tal indivíduo,
cujas evidências são de acesso apenas dele. O gênero
somente pode ser certeza para o indivíduo.
Desde a década de 60, Stoller (1993) refere-se
à frase identidade de gênero significando masculinidade
e feminilidade encontradas em todas as pessoas em formas e graus
diferentes. Assim, ao aplicar esta idéia, afirma que:
"embora a masculinidade combine com a qualidade
de ser homem e a feminilidade com a qualidade de ser mulher, sexo
e gênero não estão, necessariamente, de maneira
direta, relacionados" (pag. 28).
- desenvolvimento da identidade de gênero
Chodorow (1978) sugeriu que o desenvolvimento
da identidade de gênero em homens e mulheres deve ser diferente
nos estágios mais tenros da vida da pessoa. A diferença
adviria na interação da criança com os pais,
especialmente com a mãe. A identidade de gênero masculino,
segundo Chodorow, adviria da experiência da mãe em
diferenciar-se, em perceber-se diferente do menino-filho, e como
a mãe o afasta fisicamente mais do que o faria com a menina.
Este afastamento provocaria a identificação com o
pai distante e a perda da empatia com a mãe.
A consciência de sexo, do gênero,
da identidade e dos papéis sexuais parece estar formada aos
3 anos de idade. Belotti (1973) apontava que crianças até
três anos de idade de ambos os sexos comportam-se de maneira
idêntica, brincando com os mesmo brinquedos e da mesma maneira.
A formação desta identidade genérica pode ser
observada por estudos de diferenciação de tratamento,
pela mãe, para meninos e meninas (Lézine, 1965).
Kholberg considera a identidade sexual como produto
do desenvolvimento cognitivo. A identidade de gênero, a classificação
cognitiva de si mesmo como menino ou menina, é considerada
por Kholberg (1966; Kohlberg e Ullian, 1974) como a categoria básica,
o fator organizador central das atitudes relativas ao papel sexual.
Para que estas atitudes ocorram, a criança deve se reconhecer
como menino ou menina, tendo que se sentir seguro da invariabilidade
deste conceito, a criança tem que construir o que Kholberg
chama de constância de identidade de gênero.
Retomando o trabalho de Piaget, o desenvolvimento
das constâncias conceituais foi analisadas por Carmen Pierres
(1994) em termos de conservação das propriedades dos
objetos físicos através das mudanças aparentes.
Piaget demonstrou que as crianças não constróem
as noções de conservação até
a idade aproximada de 6 ou 7 anos. Da mesma maneira, Kholberg considera
que a identidade de gênero não chegará a constituir-se
como uma categoria lógica, firme, até que a criança
alcance o período de operações concretas e
com ele a conservação.
A identidade de gênero se constrói
nos primeiros 7 anos de vida e se inicia com a aprendizagem verbal
dos qualitativos "menino" e "menina", mesmo
que as crianças já se apliquem corretamente estes
conceitos ao final do segundo ano de vida. Nos 2 ou 3 anos seguintes,
as crianças tendem a aprender também a reconhecer
nos outros o gênero, baseando-se em um conjunto de critérios
não totalmente definidos, o que conseguem fazer com resultados
parcialmente corretos.
Nos 4 ou 5 anos, as crianças são
igualmente capazes de generalizar corretamente a denominação
do gênero a bonecas (com esta idade as crianças tendem
a conhecer o grupo genérico pelos critérios físicos
gerais como o vestir-se ou o estilo do cabelo). Aqui elas tem certa
consciência de que o gênero não pode mudar, mas
não será até os 6 ou 7 anos que a maioria das
crianças estarão seguros de si mesmos de que o conceito
da identidade sexual é irreversível, que um menino
será sempre um menino e que uma menina será sempre
uma menina, independentemente das mudanças na aparência
ou comportamento. Segundo Kholberg, entre os 4 e 7 anos, o conhecimento
das diferenças genitais não conduzem diretamente a
usá-las como critério básico de classificação
sexual. Isto contrasta com a definição adulta de identidade
sexual, a qual se centra nas diferenças genitais. Na criança
a importância dos genitais crescerá , primeiro ao dar-se
conta de que é a base de classificação dos
sexos (6 ou 7 anos), posteriormente quando desenvolve uma idéia
definida do ato sexual.
As mudanças no desenvolvimento cognitivo
relacionados com a identidade de gênero, refletiram nas mudanças
em atitudes e valores relacionados a outros aspectos do desenvolvimento
psicossexual, entre eles estão os atributos que classificam
as crianças com os estereótipos masculinos e femininos.
Igualmente ao conceito de identidade de gênero,
os conceitos referentes a estereótipos familiares masculinos
e femininos desenvolvem-se paralelamente. Estes estereótipos
aparecem com cerca de 6 a 7 anos e apresentam elementos universais.
Os estereótipos masculino e feminino, de
acordo com Kholberg, não se aprendem por transmissão
direta de padrões específicos de um grupo familiar,
mas são criados pela criança mediante interpretação
ativa de uma ordem social que faz uso de categorias sexuais segundo
conotações culturalmente universais. Estes correspondem
a uma conquista comum a todas as crianças de um grupo etário,
independentemente de diferenças familiares, sociais, culturais,
econômicas ou ideológicas, e mais, com ou sem a presença
de modelos paternos e maternos.
A construção dos estereótipos
masculino e feminino deriva principalmente de duas situações
específicas: as diferenças enquanto estrutura corporal
do homem e da mulher e as diferenças designadas pela sociedade
aos papéis extra familiares do homem e da mulher (a exemplo
de designar aos homens os papéis de maior força e
poder).
Se aos 6 ou 7 anos o conceito físico dos
estereótipos sexuais se concluíram, o passo seguinte
no desenvolvimento cognitivo é a determinação
dos estereótipos em termos de lugar que ocupam na sociedade.
Neste nível as crianças enfocam as diferenças
em termos de papéis sexuais definidos pelas ocupações
sociais típicas atribuídas a cada sexo. Neste caso,
os homens e mulheres são vistos como sujeitos que cumprem
um papel particular dentro de um sistema social mais amplo. No último
nível, as características do estereótipo são
escolhidas num nível pessoal, baseada numa concepção
individual. Esta seleção não corresponde necessariamente
a um estereótipo social determinado e está baseada
na necessidade de reciprocidade e igualdade dos indivíduos
dentro do contexto das interrelações sexuais.
A aprendizagem cognitiva dos conceitos relativos
ao papel sexual e aos estereótipos básicos, leva a
desenvolver os valores masculinos e feminino. Este processo, igualmente
aos anteriores, é produto de uma construção
cognitiva da criança, onde, nem as pressões sociais,
nem o ensinamento direto tornam-se primordiais.
O ambiente social tem exercido (sempre o fez,
deixe-se claro) uma função direcionadora sobre o papel
de gênero e as identidades sexuais (ou não) das pessoas.
A mídia escrita, falada e televisiva tem reproduzido os estereótipos
concedendo-lhes foros realidade natural. Faz-se necessário
afirmar veementemente que a identidade sexual e de gênero
são criações sociais que são desempenhadas
pelas pessoas de modo como se fossem naturais, não o sendo
ou podendo ser mudadas por meios cognitivos, a exemplo da mídia.
A determinação social, no entanto, pode ser limitada
através dos mecanismos individuais dos processos de pensamento.
A auto-identidade deve ser o objetivo para as pessoas desde a adolescência,
quando o processo é facilitado e permite uma vida mais longa
pela autodeterminação. De outra forma, alguns adultos
poderão promover-se em suas identidades mais tarde, geralmente
através de uma situação vivenciada como uma
"crise de identidade", refazendo o passo adolescente que
culminara numa identidade convencional, não questionada,
sendo apenas mais um na multidão...
Nos últimos anos a questão com comportamento
de macho e os aspectos negativos tem aparecido mais freqüentemente
na mídia. Livros passaram a ser escritos e mesmo nas revistas
leigas o assunto identidade masculina tem sido apresentado e debatido.
O papel mais assertivo da mulher tem sido exaltado desde a década
de 70 no Brasil através das revistas femininas e do movimento
feminista. A mídia somente produz influências quando
da socialização secundária, pois não
tem presença direta sobre os primeiros anos de uma pessoa,
somente através dos pais desta criança.
A mídia, no entanto, não exerce
papel predominante, engana-se quem assim o pensa!
Os pais são outra fonte muito importante
em se considerar no que respeita a formação da identidade
sexual dos filhos. Sendo modelos para os filhos, pais e mães
são as primeiras referências que aqueles tem para desenvolverem
as identidades e papéis sexuais. Através de mecanismos
infantis facilmente percebidos pelos pais, a criança imita
para desenvolver-se. Imita aos pais para serem adultos. Mas a função
dos pais na formação da identidade sexual dos filhos
também é restrita, embora mais fundamental que o papel
da mídia. Os pais, sendo os meios sociais de formação
da pessoa nos primeiros anos de vida, oferecem as direções
para onde as crianças se dirigirão em termos de identificarem-se
em seu gênero e os estereótipos sexuais, fornecendo
os guias para os papéis sócios-sexuais. Mas enganam-se
os pais que se consideram culpados ou extremamente responsáveis
sobre como será a identidade dos filhos. Talvez até
sejam mais responsáveis pela identificação
que demonstram durante a infância, mas deve haver um outro
e terceiro aspecto a ser considerado que é mais determinante
que estes dois primeiros.
Desde o início da vida fazemos escolhas.
Nem sempre nossas escolhas são racionais, nos direcionam
para um esenvolvimento e estão de acordo com projetos de
vida. Para uma criança, um projeto de vida é algo
longínquo e fantasioso de modo impossível. Pouca racionalidade
pode haver nas escolhas de uma criança, até se tornar
adolescente! Mesmo assim a criança faz escolhas. Em interação
com o ambiente as escolhas vão sendo feitas desde o nascimento
e se cristalizando, repetindo-se transformam-se em hábitos,
vícios, preferências e gostos. Nos primeiros sete anos
de vida concretiza-se a identidade de gênero. Os papéis
sexuais vão sendo treinados até o final da adolescência
quando pode permitir uma opção, mesmo que não
voluntária. Os conflitos, as forças contrárias
vão produzindo saídas e concretizando formas e maneiras
de ser que são partes de uma identidade geral que se forma.
O indivíduo se esforça em reproduzir-se para perceber-se
igual e, convencido, busca convencer aos outros de como é
em termos de sexualidade e de objetos de prazer. A pessoa tem dentro
de si o aspecto mais importante na formação da identidade
sexual: o pensamento e como ele produz (e reproduz) o ser de uma
maneira ou outra. Ao pensar predetermina como será, vindo
a ser concretamente pelo pensamento.
Faz-se necessário perceber que existe uma
identidade central independente dos vários papéis
(ou identidades) que vivencia e assume uma pessoa. É este
cerne que permite à pessoa superar formas anacrônicas
ao correr da vida, ou perceber-se capaz de mudar os rumos de sua
vida através de planos e projetos que desenha para a própria
vida futura. Aqui nos deparamos com a possibilidade da androginia
psicológica anteriormente apresentada. Ao deparar-se com
os problemas insolúveis ou muito dispendiosos de serem solucionados
pelos meios transmitidos culturalmente, a pessoa muda alguns ítens
de seus papéis e assume formas emocionais que independem
do gênero e do papel de gênero aprendido. Ao desenvolver
novas características de expressão e interação
com o mundo a pessoa (a partir da adolescência até
o final da vida) deixa a fase convencional de ser podendo encontrar
uma identidade pós-convencional, adequada com uma sociedade
pós-moderna que necessita de novas formas de comunicação. |