Apresentam-se dois aspectos a serem
considerados ao associarmos cognições e a sexualidade
masculina:
- Conteúdos que podem ser destrutivos
ou construtivos para o desempenho sexual masculino;
- processos cognitivos irracionais distorsivos.
No atendimento de problemas sexuais masculinos,
em especial a disfunção eretiva, os dois aspectos
surgem. Na maioria das vezes o aspecto de conteúdo é
mais visível e até mesmo responsabilizado pelo problema
sexual. Concepções errôneas são destrutivas
ao desempenho, produzindo quadros ansiógenos que impedem
o bom funcionamento genital. Pensamento repetitivos sobre o fracasso
e a dúvida sobre a possibilidade de desempenhar adequadamente
o coito produzem ansiedades e impedem a vivência prazerosa
sexual. Ao utilizarmos o conceito de Autoeficácia de Bandura
através de uma Escala de Autoeficácia Sexual –
forma E, podemos perceber o grau de dificuldades comportamentais,
a ansiedade e algumas cognições que se associam ao
quadro disfuncional.
Os processos distorsivos de pensamento enumerados
por A.T. Beck, podem ser constatados nos casos de disfunção
erétil e podem ser responsabilizados por vários estados
ansiógenos e depressivos associados ao problema sexual. Processos
de antecipação de pensamento, de leitura de pensamento,
tunelamento, magnificação dos aspectos negativos,
minimização dos aspectos positivos da sexualidade,
são alguns processos distorsivos encontráveis nestes
problemas sexuais.
O processo de recondicionamento do comportamento
sexual necessita da modificação destas duas condições
cognitivas: conteúdo e processo, posto que ambos se encontram
na base imediata da disfunção comportamental.
A discussão destes aspectos e o papel destes
na gênese e no tratamento das disfunções masculinas
será apresentada
A sexualidade implica numa área privativa
da vida das pessoas. Em sendo assim, é mais possível
termos o desenvolvimento de idéias e pensamentos construídos
subjetivamente em maior proporção do quem em situações
públicas e em esferas da vida que dependem de instituições
sociais determinando o conteúdo dos pensamentos e subjetividade.
Com a inexistência de processos de educação
sexual formal, as formas de distorção de pensamentos
tem um campo mais fértil para serem exercidas. A falta de
institucionalização para a educação
sexual força e permite que cada um tenha que desenvolver
suas idéias e conceitos próprios sobre as questões
sexuais.
A abordagem cognitiva da sexualidade atenta para
os conteúdos e processos cognitivos desenvolvidos que se
tornam cruciais para a existência e manutenção
dos problemas sexuais. Lílian González (1995) já
apontava a necessidade de se avaliar um problema sexual através
desta abordagem.
Os processos de distorção de pensamento
elaborados por A T. Beck podem ser aplicados para auxiliarmos homens
com disfunções sexuais a compreenderem a irracionalidade
do que crêem.
Examinemos as possibilidades de distorções
de pensamento e cognições sexuais masculinas associadas
a suas disfunções:
- perceber e pensar somente o que está
de acordo com as próprias atitudes ou humor, ignorando outros
aspectos. Muitas vezes pode implicar em relevar fatores importantes
e valorizar apenas o aspecto em concordância consigo, mesmo
que seja um pormenor.
"tenho que dar prazer a minha parceira"
– Esta é uma frase muito comum em consultórios
de sexologia. A identidade masculina dita um olhar e um perceber
apenas o que interessa a esta premissa, impedido que o homem possa
desfrutar o prazer de estar em contato com outra pessoa.
Paciente homem de 48 anos, casado há 17
anos, passa a pensar negativamente sobre sexo na condição
de que "tem que dar prazer à esposa", e que a cada
aproximação física que fizer deverá
produzir um relacionamento sexual. Justifica-se que não pode
tocá-la, fazer um carinho, pois se o fizer deverá
também fazer sexo. Assim afasta-se constantemente da esposa.
Quando ela demonstra algum sinal de desejar fazer sexo, ao pensar
não ser capaz de lhe dar prazer, pois "sabe" ter
uma dificuldade erétil, entra em altos graus de ansiedade,
e dificulta a ereção peniana ocorrer. Ao não
se importar com o próprio prazer, apenas a idéia de
fazer a esposa sentir prazer é percebida como verdadeira.
Com algum tempo de terapia passa a usar a frase: "Percebo que
não consigo estar 100% disponível para qualquer coisa
que dá prazer".
- uma variação da visão em
túnel, implica na descontextualização de uma
afirmação ou situação para chegar a
uma interpretação incorreta.
O pensamento de que o sexo é composto apenas
de penetração, faz com que os homens constantemente
descontextualizem o momento sexual. O ato da penetração
ganha importância e a obrigação da ereção
passa a existir. A maioria dos homens não assimila o desejo
como anterior e importante para a ereção ocorrer e
por conseguinte a penetração. O desejo é pressuposto
pela ereção. Ao ser percebido com ereção
crê que deve estar pronto para sexo, e busca nestas afirmações
a igualdade do pensamento da mulher.
A afirmação percebida como correta:
necessidade da ereção para o ato iniciar-se, faz com
que o homem de 43 anos, casado com três filhas, sempre pense
no ato sexual como uma obrigação, quando entra em
ansiedade, e "mesmo tendo desejo" tem o medo de falhar.
A abstração de que a ereção é
mais importante de que seu desejo, conduz a não afirmar-se
de modo assertivo pondo o desejo sexual como argumento para o início
do ato sexual.
- visão tendenciosa que permite afirmações/compreensões
sem fundamentos.
A esposa, numa noite de calor, levanta-se para
fechar janela; retorna à cama, deitando-se de costas sobre
o marido. Este homem "sabe" que deverá ocorrer
sexo na seqüência. O desespero surge. Não havia
desejo sexual, mas a situação conduzia a sentir que
deve fazer sexo.
Um homem com ejaculação precoce
que tende a fazer sexo rapidamente, e com preliminares rápidas,
busca perceber nas expressões sexuais da esposa "sinais"
de que ela está excitada e próxima do orgasmo. Assim
ele poderia ejacular, e assim o faz sem que ela esteja pronta para
um orgasmo.
- afirmações absolutas que não
tem fundamentos; pensar excessivamente.
Uma forma comum de pensamento em homens com disfunção
eretiva é a repetida frase de que não conseguirá
fazer sexo, de que a ereção não será
suficiente, de que perderá a ereção se a conseguir,
de que uma vez perdida a ereção, não mais poderá
obter outra num prazo de tempo satisfatório...
A repetir estas frases constantemente, o homem
passa a fazer delas a realidade e não atentar mais para o
contato sexual.
Alguns pacientes chamam a estes pensamentos recorrentes
de "fantasmas’ que surgem do nada e atrapalham seu desempenho
sexual.
Isto acontece mesmo quando a proporção
entre fracassos sexuais e os sucessos é maior para os sucessos
sexuais.
Algumas vezes de um episódio negativo,
o homem já estabelece um padrão de pensar no erro
antes de balancear os episódios.
- tudo ou nada; obrigação de escolha
entre dois extremos.
Um exemplo muito sintomático foi o do cliente
que usou esta expressão: "Quando estou com minha namorada,
indo ao motel, para uma noite de sexo, ao chegarmos na portaria
do motel, buscar o documento para entregar, toco meu pênis,
se não estou em ereção, dou meia volta e desisto
do sexo. Se não estou com ereção do que adianta
ir para o motel?"
"Se vou tocar nela, é para fazer sexo"
- catastrofização dos eventos e
situações. Sobrevalorização de aspectos
ou circunstâncias.
Nas questões sexuais, os homens sobrevalorizam
o papel do pênis no relacionamento sexual. Um dos passos mais
difíceis de fazer com que iniciem exercícios de dessensibilização
sistemática in vivo é o pensamento de que para estar
nu com a parceria sexual na cama precisa estar preparado para o
sexo, ter ereção. O pensamento fica focalizado na
ereção e não se espalha para as sensações
de prazer a serem obtidas no contato sexual. Ao focalizar a atenção
no pênis que não está rígido, o homem
tende a considerar que este evento é a pior coisa que poderia
existir e que nada de bom poderá ocorrer. Esta situação
o impede de realmente excitar-se e obter uma ereção
ou recuperar uma ereção perdida.
Muitos homens afirmarão que não
podem sair com a mulheres que desejam, pois falhará e ela
nunca mais o desejará ou o perdoará
- atribuições negativas; tendência
a negativizar, explicar desfavoravelmente as ações
de outrém.
A preocupação com a parceria sexual
coloca o homem em desvantagem de tal forma que a opinião
dela torna-se sempre muito mais importante. Sempre o homem com disfunção
eretiva irá justificar que precisa estar pronto para ela
para o ato sexual.
Ao vivenciar os pensamento depreciativos e negativos
de seu futuro desempenho sexual, o homem somente percebe os aspectos
negativos do contato sexual. Culpando-se, não consegue perceber
o contato a dois e nem as sensações prazerosas que
o contato físico poderia trazer. Consegue, apenas, perceber
o rancor da esposa, ou o medo de que algo não se dará
da maneira desejada. Um exemplo foi o do homem que ao sentir-se
assim, deixa de vivenciar o contato tátil e não tem
condições de ejacular, pois não eleva o grau
de excitação necessário para a ejaculação
ocorrer.
A ocorrência deste processo em parcerias
sexuais conduz a um clima ansioso junto ao momento sexual. A circunstância
na qual a mulher explica-se que o homem não tem ereção
por não gostar mais dela, não a desejar, produz reações
contrárias ao contexto sexual e ansiedades a ambos no relacionamento.
Muitas vezes uma mulher, ao presenciar uma falha
erétil, chora, pensando não ser desejada não
ser atraente o suficiente para o parceiro. O homem tendenciosamente
pensará que ela está chateada com ele e que foi ele
quem causou o choro nela...
- decorrente das atribuições tendenciosas;
um rótulo decorre de uma ação tornando uma
pessoa agregando o adjetivo daquela ação negativa.
Frases de homens com disfunção eretiva:
"Sou meio homem", "Não sou mais homem",
"sou impotente"
São esta formas que fazem com que o homem
julgue-se sempre "impotente". Ao rotular-se de forma negativa,
as próximas situações deverão estar
de acordo com esta rotulação, o desempenho sexual
ficará comprometido, pois ela já sabe que "nunca"
conseguirá fazer sexo.
A rotulação negativa pode vir por
assimilação de identidade posta pela parceria sexual.
Algumas parceiras sexuais agridem verbalmente o homem, de modo que
este tem um referencial externo que o rotula. Ao assimilar esta
rotulação temos a impossibilidade de comportamentos
sexuais seguros e satisfatórios no futuro.
- percepção de ações
de outras pessoas como executadas para causar mal a si; o outro
faz algo e este algo é interpretado como uma forma de produzir
mal.
Este é um processo que não ocorre
freqüentemente associado a questões sexuais. Os sentimentos
de culpa por não "satisfazer a parceria sexual"
contrapõe-se a culpar a parceria, mesmo quando ela é
causadora ou mantenedora da situação disfuncional.
Muitas vezes a parceria sexual se encontra desenvolvendo
este processo cognitivo. Desta forma tempos muitos casais necessitando
de uma abordagem conjugal para equilibrar estas condições
distorsivas da parceria e que produzem ansiedade junto do momento
sexual.
- conceber o que os outros pensam ou ter certeza
de suas motivações sem que aquela pessoa lhe tenha
comunicado efetivamente.
Uma das formas mais comuns das cognições
sexuais masculinas brasileiras. O homem ao se considerar dono do
prazer sexual da mulher, sempre imagina que ela deseja fazer sexo
com ele tão logo se aproxima dela. Uma frase lugar comum
tem sido esta: a de que sabe que ela deseja fazer sexo se ele a
tocar. Ao ter a certeza de que sabe entra em ansiedade desenvolvendo
comportamentos sexuais inibidos: baixa de desejo sexual, dificuldade
erétil, incapacidade de manter ereção, ejacula
rapidamente...
O processo é tão enraizado e tão
considerado "correto" que mesmo que a parceria sexual
expresse o contrário verbalmente, em sessão de terapia,
com testemunha, ele ainda repetirá esta frase muitas vezes,
reforçado pelo contexto passado.
O homem mede 59 anos que se apaixona por uma mulher
também casada e sempre sabe que ela depende do pênis
ereto para o prazer sexual... mesmo após eles conseguirem
conversar a respeito e ela assegurar que obtém prazer sexual
esfregando-se nas pernas dele.... nestas condições,
mesmo tomando sildenafil prescrito pelo médico, a ereção
não era satisfatória até que pode lidar com
estas cognições.
- Raciocínio subjetivo (Burns,
1980)
- uma emoção forte acontece, e por
conseguinte alguém será responsável por ela;
interpretação do mundo através de emoções
fortes, mas ligando fatos e idéias de outras pessoas como
causadoras destas emoções;
Neste processo podemos perceber que o corpo do
homem é personalizado como autor da desgraça sexual.
Ao falhar sexualmente, 60% dos homens considera que o corpo tem
falhas, é doente. Não se responsabiliza pelo ato sexual
falho. O responsável é uma veia ou artéria,
uma causa bioquímica que o impede de fazer sexo. Mesmo muitos
dos 40% restantes, crendo que são condições
psicológicas que produzem o efeito disfuncional, ainda reputam
questões orgânicas que o prejudicam.
Muito comum é a responsabilização
do tamanho do pênis como o vilão das dificuldades sexuais
e emocionais. Constantemente recebemos cartas de homens desejando
aumentar o pênis, pois com um pênis pequeno (geralmente
na média ou de 10 a 20% maiores que a média, não
buscam sexo. Além do que "sabem" que não
irão agradar à parceira que deseja um pênis
maior...
Ao observarmos os processos cognitivos distorsivos
em homens com queixas sexuais temos um poderoso auxiliar para a
aplicação as técnicas comportamentais em uso
desde a década de 50. Ao desconsiderarmos estes processos
cognitivos, a interpretação distorsiva destes homens
com problemas sexuais os conduzirá a abandonar a psicoterapia.
A compreensão racional dos processos e técnicas comportamentais
da terapia sexual permite a menor evasão e atingir o sucesso
almejado e necessitado.
- Referências bibliográficas:
Beck, A T. (1995): Para além do amor. Rio
de Janeiro : Editora Rosa dos Tempos.
Burns, D. (1980): Feeling good. New York : New
American Library.
González M., L. (1995): Terapia cognitiva
em terapia sexual. In Psicologia e sexualidade. Rio de Janeiro :
Editora Medsi.
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